quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O parque vazio

   
Cheguei no trabalho com os joelhos cheios de terra e com a sensação de que eu estivesse fora do campo gravitacional. Isso por causa de alguns minutos andando de bicicleta. Não é todos os dias da semana que tenho um tempinho desse, e quando a aula terminou mais cedo, até demorei para pensar no que eu poderia fazer. Brasília uniu seus Ipês pendurados sob o tempo seco e um calor que bate 32 graus, mas nada mal para um dia no parque da cidade.

Destravamos as bicicletas alaranjadas e começamos à perambular a calçada rumo ao parque Ana Lídia, lugar no qual perdi um anel de plástico, mas muito querido, e onde salvei meu irmão caçula do brinquedo mais alto. Ele havia desistido no meio do caminho sem andar pra frente e nem pra trás, então a solução foi arrastá-lo. Esse parque sempre foi o lazer preferido dos meus pais para passarmos a tarde, e além das memórias, é cheio de pipoca e algodão doce - que claro, é para a alegria deles.

Nesse dia, estava com a minha "copilota" de óculos azul e sorriso estampado até nas segundas-feiras e meu colega de curso que não fala francês, mas tem um requinte impressionante. Estávamos nós, talvez parados em memórias antigas, quando - até então - não tínhamos entendido o por quê de uma aglomeração de pessoas olhando para suas próprias mãos.

Eram mais de cinquenta pessoas perto do brinquedo "aranha", que toda criança brasiliense um dia caiu de lá. Crianças, adultos de havaianas ou de gravata e alguns adolescentes escandalosos estavam andando em passos lentos com os olhos fixos na tela de seus smartphones.

Estávamos perplexos com o que víamos e, naquele momento, foi desconcertante imaginar que um dia éramos crianças como aquelas. Mas não tínhamos a camisa limpa ou ficávamos sem fazer amiguinhos novos no escorregador.

Os brinquedos que fizeram nossa diversão naquele tempo, hoje, estão vazios. O amigo novo que a gente apresentava para os nossos pais foi substituído por criaturas virtuais de um jogo qualquer.

Devolvemos as bicicletas e nos despedimos. Cheguei no trabalho e pensei: ainda bem que meus joelhos estão sujos de terra.

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