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| Curitiba, Ilustração de Maycon Prasniewsky |
Se houvesse um mecanismo de buscar palavras em um diário escrito à mão, a palavra-chave com maior incidência seria
Alice. Em 2007, Alice e eu éramos vizinhas e em pouco tempo nos tornamos mais chegadas que irmãs. Naquele tempo, animávamos o bairro com nossas ideias mirabolantes e, em menos de doze horas, jogávamos bola, compúnhamos músicas e salvávamos cachorros perdidos na rua.
Alice, de cabelos castanhos no ombro e sorriso largo, tinha duas irmãs: Alana, a caçula, sofria em nossa mão, e Aline, a mais velha, tinha uma vida que eu ansiava logo ter - trabalhar, ser independente e usar salto alto sem que outros pensem que o sapato fosse da minha mãe.
Não demorou muito para chegar na idade de Aline e, como qualquer adulta nostálgica aos 22 anos releio com apreço as folhas de meu diário. Na primeira página, escrevi que minha melhor amiga ficou de castigo, mas, sempre esperta, teve uma ideia brilhante. Conto que, da manhã até o anoitecer jogávamos a bola pelo muro - um vôlei, no qual a rede que dividia a partida era a parede de nossas casas.
Nada separava essa dupla até a chegada de uma notícia que nos entristeceu. A família de Alice iria se mudar de estado nos próximos dias. A mudança foi tão repentina que nossas lágrimas caíram em uma distância de mais de mil quilômetros uma da outra. Não deu nem tempo de chorarmos juntas.
O meu diário ficou empoeirado e a casa rosa da Alice logo acolheu outros moradores. O sorriso de Alice já não era tão nítido para mim e a bola que jogávamos pelo muro se perdeu nos cacarecos do sótão. A lágrima secou e passamos a acompanhar a vida uma da outra pelas redes sociais e, de vez em quando, contávamos novidades pelo MSN (melhor que WhatsApp por sinal). Porém, devido ao correr da vida que embrulha tudo, como diz Guimarães Rosa, nós duas perdemos contato.
Onze anos depois, nós choramos juntas. Alice transferiu um semestre da faculdade de música, no Maranhão, para Curitiba e, antes de embarcar ao Paraná ela passou por Brasília. De cabelos castanhos no ombro e sorriso largo, voz soprano e semblante sereno, a minha melhor amiga de infância não mudou nada. Salvo as experiências, conquistas e aprendizados que a fizeram uma mulher madura - e admirável -, para mim, é a mesma Alice que conheci quando a bola de vôlei caiu pela primeira vez do outro lado do muro.