quinta-feira, 4 de maio de 2017

A terceira idade conectada para fazer poesia

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Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães, a poetisa e contista goiana.

                
A consagrada poetisa dos becos de Goiás, Cora Coralina, publicou seu livro de poemas pela primeira vez aos 75 anos de idade, numa época em que demoraria mais de vinte anos para a internet chegar no Brasil. Hoje, com wi-fi e 3G, os idosos podem ver seus textos publicados na tela de um computador através da plataforma ‘Recanto das Letras’ (www.recantodasletras.com.br). O site literário reúne mais de 15 mil usuários acima de 60 anos que são livres para publicar desde simples frases a ensaios e até canções e poesias que podem ser tocadas na rádio online.  Os internautas são escritores que muito se orgulham de suas histórias, como a poetisa Eudália Martins, o trovador Solano Brum, a cronista romântica Walquíria Rocha e o escritor Djalma Pinheiro, que uniu mais de 100 mil autores dispersos pela rede. 
                O servidor público fluminense Djalma Pinheiro, de 66 anos, faz questão de dizer que é filho de uma lavadeira e de um motorista, mas estudou nos melhores colégios do Rio de Janeiro. “A minha mãe lavava roupas para o diretor e ganhei bolsa de estudos desde o primário ao cientifico”, conta. Djalma sempre foi um amante das letras e na juventude, escrevia manifestos contra a ditadura militar. Assim que ele entrou para a faculdade de direito, foi expulso por suas ações políticas. Quando recebeu a anistia, ele não voltou para o curso e decidiu seguir carreira de escritor. “Não acredito em uma escola para ser escritor. Poetas não escrevem, e sim, psicografam o interior de si e do alheio”, disse.
 Djalma Pinheiro no local que escreve suas poesias
               Djalma acessou a internet pela primeira vez no ano de 2005 e digitou alguns de seus textos que estavam no papel, “Quando eu ainda trabalhava na Imprensa Oficial, tive a chance de usar a internet e timidamente comecei a postar alguns escritos”, contou Djalma Pinheiro, que em 2009, criou seu perfil no recanto das Letras e ficou impressionado ao acessar as estatísticas fornecidas pelo site.  “Fiquei pasmo ao receber relatórios que meus leitores estavam espalhados em mais de 90 países e idealizei uma academia que reunisse os amantes de arte e literatura perdidos na internet”, disse.  Foi então que os sonhos do escritor de unir os poetas espalhados pelo mundo se tornaram realidade em 2016 com a criação da Academia Mundial de Cultura e Literatura (AMCL). “Comecei a convidar em torno de 21 acadêmicos, porém já na segunda semana, tinha 75 cadeiras ocupadas e mais de uma dezena de pedidos pendentes de escritores, poetas e poetisas”, conta o escritor, com um sorriso no rosto.
Leia um poema de Djama:

Coração em Poesia

Este estranho coração
bem um coração de poeta
muitas vezes dolorido 
 Outras vezes transbordando de amor
Dolorido pelas agruras do desamor
Transbordando de amor
em minhas escritas
Mas ele bate 
 Ele sangra 
 Ele grita 
 Ele na realidade quer amor 
 Um amor infinito como em minhas poesias 
 Um amor de esperança
Baseado em amizade e confiança 
 Ai, sim este estranho coração
Voltará a transbordar de amor 
 Como um coração de poeta 
 E assim ser um coração em poesia.

 Djalma Pinheiro



Sensibilidade

                Eudália Alves Martins, de 73 anos, estudou até o ensino fundamental e mexe com qualquer coração embrutecido quando recita uma poesia. Vinte e dois é o número de sua cadeira virtual na Academia Mundial de Cultura e Literatura (AMCL). Ela guarda certificados de sarais online e prêmios de melhor escritora do ano em uma pasta no computador. “Comecei a escrever na adolescência e guardava bilhetinhos na gaveta durante anos e anos”, contou ela, que tem mais de mil textos e quatro e-books, mas o que gosta mesmo é publicar as poesias em áudio. “Adoro gravar áudio. Muitos amigos me pedem para gravar as poesias deles e já tenho vários CDs”, afirmou a poetisa, que envia  todos os dias  um áudio de sua autoria para o namorado. “Apesar da minha idade, sou uma mulher muito romântica”, ensinou Eudália. 
Eudália Martins com seu livro lançado através do site Recanto das Letras


Leia um poema de Eudália:

A vida

A vida sempre segue seus caminhos
são traçados logo que nascemos
E assim vamos vivendo

Um dia após outro
sempre procurando ver o lado favorável
ou o mais bonito.

E assim vamos seguindo
nem tudo são flores
mas cabe a nós
colorir os nossos dias

E a vida segue...

Eudália Martins


Walquiria Rocha 



                O amor inspira poesia e a gerente de escritório Walquiria Rocha, de 66 anos, publicou mais de cem contos sobre seus casos de amor no pseudônimo de Regina Luíza. “São histórias de amores e desamores depois de quase cinco décadas que reencontrei meu primeiro namorado”, afirma ela. Em cartas, crônicas e prosas poéticas, Regina escreve as desilusões de um amor que a deixou. “Vieram outros amores e eu continuei escrevendo textos que foram brotando em meu coração”, conta a eterna apaixonada. 




Walquiria no pseudo de Regina Luiza


"O sol agora brilha em forma de arco-íris e a chuva quando chega no final do dia me encharca de gotas de você... levanto o rosto me embebedando com algumas gotas e estendo as mãos tentando segurar algumas como se neste gesto estivesse segurando suas mãos" 

Trecho da prosa poética 'Muito Além', por Regina Luiza

Acessibilidade

                O Recanto das letras é uma rede de compartilhamento literário e de histórias de vida. A faixa etária predominante dos usuários é entre 35 e 59 anos, sendo apenas 10% deles, idosos. Apesar disso, a publicidade do site é um senhor da terceira idade usando o computador e os assinantes têm a opção de aumentar as letras e acrescentar imagens nos textos. “Acho o Recanto das letras um dos melhores sites para utilizar, tem alguns que eu me atrapalho”, disse o bancário aposentado Miguel Carqueija, de 68 anos. Ele está na rede há quatro anos e seu perfil tem mais de 1.400 textos, desde novelas e romances a ficção cientifica.

A rede 'Recanto das letras' fundada em 2004


               
O militar aposentado Solano Brum, de 75 anos, escreve poesias desde a adolescência e mandava cartas para sua escritora predileta, Cecília Meireles. “Eu e meus amigos enviava cartas para ela, e gentilmente nos respondia chamando a gente de ‘meus netinhos’ lá pelos anos de 1958.” As cartas se perderam com o tempo e Solano só voltou a escrever quando conheceu o Recanto das Letras. “Meu primeiro Poema neste gracioso site foi em 2016. Fiquei fascinado quando o vi publicado e recebendo comentários.”, disse o poeta.

Perfil de Solano Brum no site

Meus versos

Eu ofereço a ti o que tem de mais caro
O que pela vida em fora vivo a construir
Com a inspiração da qual não me separo
Comigo nasceram e comigo hão de partir

Tenho-os...Não sei donde ou como veem
Sei que minha mão constrói o costumeiro!
As vozes que me chegam de muito além,
é barro que toma forma na mão do oleiro

Dizes-me que, o que escrevo, tem valor
Mas são todos teus... Não me pertencem
Quisera eu, cantá-los a todo universo!

Mas, os dou a ti, sem hesitar...por amor!
é a prova de que os anjos dizem amém
nas sílabas das frases de qualquer verso.

Solano Brum

                O fundador do Recanto das Letras, Patrick Flemer, teve a ideia em 2004 de criar um site para o público postar poesias.  “O ‘nossas poesias’ foi um site que era apenas uma brincadeira minha para possibilitar o compartilhamento de poemas de autores amadores, e chegou a ter uns 300 usuários cadastrados.”, disse ele. Mas Patrick quis levar a brincadeira a sério e começou a se dedicar profissionalmente no site com a ajuda de colaboradores. “Hoje nós temos mais de dois milhões de poesias em nosso acervo e milhares de outros textos publicados”, acrescenta.

SERVIÇO:


Ilustração: Marcos Arthur

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Rivais no futebol e parceiros na vida


Mãe, irmãos e namorados que vivem em harmonia apesar da paixão por times adversários

                Os estudantes Gabriel e Matheus Ventura, de 22 anos, são gêmeos e têm uma paixão em comum: o futebol. Tanto é que costumam ir juntos ao estádio para assistir às partidas. Poucos conseguem identificá-los a não ser por um detalhe: Matheus torce pelo Botafogo, enquanto Gabriel, um minuto mais velho do que o irmão, é fanático pelo flamengo. “Eu nasci pra ser rubro negro”, afirmou Gabriel, único da família que não é Botafoguense.
                A paixão por futebol foi estimulada pelo pai dos gêmeos que os inscrevia para entrar ao lado dos jogadores quando o Botafogo ou o Flamengo jogavam em Brasília. “Nós tínhamos por volta de seis anos e quando o Botafogo jogava, eu entrava em campo e o Gabriel ficava sozinho na arquibancada”, contou Matheus, rindo.
                Já quando o jogo era do Flamengo, Matheus, o botafoguense, ia para a arquibancada e Gabriel seguia para o campo. Até hoje, os irmãos acompanham um ao outro quando o time do coração vai jogar. “Eu vou com ele no estádio quando o Flamengo joga, mas eu torço contra”, brincou Matheus. “Quando é Flamengo e Botafogo, a gente não senta junto, e apesar de tirar sarro um do outro, nunca brigamos por um jogo”, ressaltou Gabriel.
                A ironia acompanha o destino dos gêmeos. O flamenguista Gabriel namora uma botafoguense e o irmão Matheus, torcedor fanático do Botafogo, tem uma namorada rubro-negro. Eles garantem que o amor supera as diferenças no campo e também no campeonato brasileiro.

Galo tricolor  
                Na família costureira Joana D’Arc dos Santos, de 62 anos, não é diferente. O amor pelo Atlético Mineiro não se estendeu aos filhos Daniel, 32 anos, e Marco Paulo, 30 anos, torcedores do São Paulo. Apesar de times opostos, a paixão pelo futebol é uma só. A matriarca se encantou pelo Atlético ainda adolescente quando assistiu uma partida do time em Belo Horizonte.
 “A cidade virava uma festa quando o meu time jogava contra o Cruzeiro e o Atlético sempre ganhava”, contou Joana D’Arc.
                Anos depois, em 1979, ela foi para a Grécia em busca de oportunidades de emprego. Lá, o time campeão era o Panathinaikos.  Nos sete anos que morou na Grécia, a dona de casa não abandonou o Atlético. Mas, por outro lado, não conseguiu transferir a paixão pelo Galo aos filhos Marco Paulo e Daniel, ambos nascidos na Grécia.
“Quando chegamos a Brasília, só se falava no São Paulo e eu o escolhi em 1993, quando foi o campeão da Libertadores da América”, contou Marco Paulo Dos Santos.

Torcida mista
                Na família dos três irmãos brasilienses Lucas Carneiro, de 19 anos, Natã, 26, e Kalleby, de 21, a casa também é dividida. O irmão mais velho, Natã vibra pelo Corinthians, enquanto Kalleby é torcedor do São Paulo e o caçula Lucas torce pelo Cruzeiro.
“Meu pai é cruzeirense e quando ele chegava na sala, eu também era. Quando ele saía e o Natã entrava, eu torcia pelo Corinthians”, comentou  Lucas, soltando uma gargalhada. “Foi amor à primeira vista. E como a gente não manda no coração, mês que vem, vou me casar com uma flamenguista”, brincou Kalleby, que acha que a rivalidade no campo não afeta o amor que sente pela namorada.

                Para a psicóloga do esporte Kelen Dantas, o jogo de futebol é tanto um estímulo de alegria como uma forma de ser aceito em um grupo, apesar de as pessoas terem conflitos entre perdas e ganhos. “O ser humano precisa viver em comunidade, em determinado meio social e o futebol proporciona essa integração”, afirmou a psicóloga, lembrando que a escolha do time pode sofrer as mais diversas influências: familiar, pessoas que se admira e também pelas vitórias momentâneas.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Mulheres apaixonadas por carros


Foto: Alan Rios

             O Mansplaining é o hábito de os homens interromperem as mulheres para explicar assuntos que, no julgo machista, não fazem parte do "universo feminino". Uma cena assim ganhou os holofotes quando Galvão Bueno, comentarista de futebol, tentou explicar para a jornalista Sandra Annenberg que não se pode tocar na taça da copa do mundo sem luvas. Em tom paternalista, ele questionou se Sandra já foi campeã do mundo jogando futebol ou presidente da FIFA para tocar na taça. Ela replicou, sarcasticamente, que sabe do protocolo.

             Não é só quando o assunto é futebol que o mansplaining, junção das palavras no inglês Man (homem) e Explain (explicar), pode ocorrer. Quando se fala em carros, é ainda mais comum mulheres sendo interrompidas para ouvir explicações desnecessárias. Abaixo, conto a história da aluna de Engenharia Automotiva pela Universidade de Brasília (UnB), Brenda Kennedy. Ela é a unica mulher na equipe de 30 pessoas que projeta um carro elétrico para competir no torneio "Fórmula SAE". Confira!

             No anuário estatístico de Engenharia Automotiva da Universidade de Brasília (UnB), mais de 300 mulheres ingressaram no curso ao longo dos dez anos de história. Mas o número ainda é baixo, se comparado aos alunos do sexo oposto - apenas 11% são mulheres em um corpo discente de na maioria homens.

             Uma das alunas do sexo feminino, a estudante Brenda Kennedy, de 19 anos, conta que decidiu cursar engenharia automotiva quando ouviu sobre o primeiro protótipo de um carro nas aulas de física no ensino médio. Ela conta, com brilho nos olhos: "Depois de tantas inovações, o motor de um veículo tem o mesmo princípio de funcionamento do protótipo precursor, que não por acaso, tem a participação de uma figura feminina – Bertha Benz."

              Brenda e mais 30 colegas do sexo oposto projetam um carro elétrico para a 14º competição Nacional da Sociedade de Engenheiros Automotivos (SAE). Nos três dias de prova, em São Paulo, os carros serão avaliados através de apresentações de marketing e financiamento, além da análise mecânica do veículo. As esquipes com maior pontuação vão representar o Brasil em duas competições internacionais nos EUA. Brenda, a única mulher entre os colegas, está empenhada no projeto do motor do veículo que vai competir em novembro deste ano. “Quando fui fazer a entrevista para entrar na equipe de powertrain, o capitão me perguntou a quantidade de peças em um carro. Eu não fazia a mínima ideia disso, mas eu disse a ele todas as outras coisas que eu sabia. Ele ficou surpreso e eu entrei para o time.”, conta Brenda.

              Brenda não só trabalha na construção do carro que vai competir na SAE, como também faz parte da empresa júnior "Engrena" na Universidade de Brasília (UnB), onde voluntários fornecem projetos automotivos a pequenas empresas no Distrito Federal. A equipe é composta por 23 homens e duas mulheres que não passam desapercebidas. Karla Pereira, 20 anos, diretora da Engrena, aprendeu mecânica desde cedo com o pai caminhoneiro. “Para mim foi uma grande conquista me tornar diretora e mostrar que as mulheres também conseguem trabalhar bem nessa área”, afirma.

Machismo

             Há mais de 3 mil quilômetros de Brasília, em Manaus, a recém-formada Cherolee Ramos, de 23 anos, conta que entrou no curso de Engenharia Mecânica pela paixão por automóveis. Ela conta que, ao procurar emprego, foi rejeitada por uma multinacional pelo fato de ser mulher. A empresa afirmou que apenas homens trabalham no setor e que “uma mulher não aguentaria a pressão”.

             Cherolee afirma que sofreu diversos embates quando decidiu cursar um curso de maioria estudantes homens. “Meu pai não gostou muito por ser uma área masculina, ter poucas oportunidades para mulher e por ser considerado um curso difícil. Mas acabou aceitando”, conta. Ela administra o blog “Mulheres na Engenharia”, que reúne apaixonadas por carros de várias regiões do país em um grupo no WhatsApp. Por intermédio do grupo, as mulheres decidem a pauta das postagens no blog e marcam encontros. O blog divulga oportunidades de emprego, apostilas e histórias de mulheres que marcaram o mundo da engenharia.

Leia uma história que deu o que falar:



SERVIÇO:

Fórmula SAE

Blog da Cherolee: Mulheres na Engenharia

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