terça-feira, 30 de junho de 2015

Muro


Conheço o mundo
como um cubo.
Faces que se interligam,
frases que não se bicam.
Vejo o mundo
como o refúgio
de gente diferente,
pensamentos convergentes.
Mas o mundo é um tudo
tão vazio e inibido.
Tem de se procurar
um outro fundo
Para enfim,
Poder escalar
os muros.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Enquanto o Mario sorri...

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Meu poeta preferido é o Mario. Foi um pioneiro na poesia falada, de roça, cantada em festinhas infantis. Como o Quintana, o Mario Ribeiro era fã da simplicidade. Resolveu viver a vida em uma casa pequena com um grande quintal. Acordava cedo, e se pudesse já almoçava pela manhã para passar o dia naquela roça que batia de frente à sua janela. Mas, não parava em casa.


Tinha uma arara. Alguns bois e vacas, já teve ovelha. Saia pra cidade para arranjar a comida dos porcos. Era amigo de todo mundo, cumprimentava os moços na esquina. E aquele povo, admirava o tanto que Mario sorria... Se perguntavam,porque o cara da mansão estava sempre de cara fechada, e esse Sr. Mario, rindo atoa. Que vida boa ele tinha. Mas ele tinha os seus problemas, a vida só era boa porque ele era bom. Ele foi inspiração para quem o via em seu espaço que parecia um sertão. Nunca o vi de roupa nova, mas ele se renovava à cada manhã porque aquele sorriso não ia embora.


  Nasceu na roça, em Minas Gerais. Viu televisão pela primeira vez quando foi se alistar. Se impressionou com a tecnologia um pouco ruim para esta geração. Casou com minha vó, teve dois filhos. Mas depois, viraram grandes amigos. Conheceu uma mulher, depois teve mais dois filhos. E de netinhos, teve muitos para ele cantar nas festinhas de aniversário.

Sem diploma de um poeta, sua vida foi uma poesia.

O seu olhar refletia a alma de uma criança, usava palavras mansas e nos abraçava como se aquela fosse a ultima oportunidade de abraçar. Da adversidade, ele transformava em felicidade... Rindo quando não há nenhuma razão. "Tem dó!" era o que ele dizia quando não ligava pra situação. "Você vai aonde?" era o que ele me perguntava quando eu dizia Oi vô.

  Também me ensinou à nunca ter medo do boi da cara preta, só pelo motivo dele cantar a cantiga com a sua típica expressão facial. "Boi, Boi, Boi da cara preta. Pega essa menina que tem medo de careta"; Aquela careta era mesmo é engraçada, não dava medo nenhum.

Ele dizia que ia chover, se por acaso eu acordasse cedo. Sempre fui enrolada, mas quando eu acordava e olhava pela janela, ele sempre estava no mesmo lugar: no banquinho velho do galpão. Ninguém sabia o que ele tanto olhava, mas creio que era bom, porque aquele sorriso não ia embora não.

  O Mario nunca vai ir embora. Quem teve a sorte de o conhecer vai querer um dia aprender como ser feliz com pouco e em como viver a felicidade quando não se tem motivos para isso.
Meu querido vô e amigo,

A poesia da sua vida está registrada em meu coração.
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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Folhas de outono


Vou-me embora atrás
do desenho que fiz
na infância.
Corro atrás
das lembranças
que imaginei
possuir um dia.
Escrevo contos
vivo pombos
criei asas para ir
rumo aos sonhos.
Mas da janela
vejo o sol
que mira as
folhinhas de outono,
caídas de encontro
ao mesmo sol 
que eu já vi 
imaginando estar aqui.
Deixe-me ir
é tudo tão real,
viver sonhos
no sentido literal.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O lar do meu avô


As fotografias registram memórias desde que me entendo por neta do Mário. Foi nessa roça que cresci ouvindo as histórias do vovô. 

Vivíamos aventuras na casa da árvore que ele construiu e pregávamos algumas peças. Me lembro de quando eu e meus primos jogamos todo o milho para as galinhas - elas fizeram a festa, mas o vovô ficou meio bravo porque acabamos com o pacote e as deixamos obesas. 

Palhaço e alegre... Dizemos "oi vô?" e ele sempre responde: "você vai aonde?".


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Quintanares de Mario

Ilustração de Marcos Guilherme 

"Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo..."


  No quarto 217 do Hotel Majestic, JB se impressionara com seu novo quarto que tinha até cozinha. Pois vinha de um quarto bem menor no Hotel Royal. Mesmo assim, o poeta dizia que vivia em si mesmo, ele poderia até não perder as suas coisas ali. Afinal, o espaço ao seu redor não importava. E nem ultrapassaria o grande interior daquele encantador de pássaros. Talvez ele fora um passarinho quando pessoas estavam apenas, passeando.

"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..."


  Mario Quintana, com o primeiro pseudônimo no jornal da cidade como "JB", era poeta e jornalista mesmo que o pai quisesse um filho doutor. Nasceu em Alegrete (RS) e viveu um bom tempo em Porto Alegre. A infância do poeta mírim não fora tão alegre, porém ele a encontrou na literatura. O seu Celso Quintana contava pra todo mundo que era pai do JB. Mario, sem acento, fora um doutor de palavras que curavam.

"O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!"


  A noite de 30 de julho de 1906 ficou marcada como o nascimento de um ser que no futuro, se tornaria um dos grande Poetas, Jornalistas e tradutores brasileiros do século XX.  Sua primeira poesia foi publicada no Correio do povo - onde mais tarde, trabalhou durante muitos anos de sua vida. Depois de aprender francês e concluir seus estudos, Mario trabalhou em uma livraria mas logo retornou à sua cidade para ajudar na farmácia da família. O ano seguinte fora o ano mais triste para Mario, seus pais morreram. Mas no mesmo ano, ele ganhou a premiação no concurso de contos em um jornal de Porto Alegre e a publicação de seu poema em uma revista carioca. A dona Virginia e o seu Celso se orgulhariam do guri que eles ensinaram à escrever.

"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…"



  Já na década de 40, Quintana é bastante elogiado por intelectuais e recebe uma indicação na Academia Brasileira de Letras, porém perdeu para um ministro. Depois, para o atual presidente da ABL e mais tarde para um bom jornalista, mas que não tinha nem fama de escritor. Fora a maior injustiça da academia, mas quem disse que Mario se importou, pelo menos a sua criatividade não se afundou. E surgiu a bem sucedida resposta ao ocorrido, com o poeminha do contra:

"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!"

Poderia prolongar as palavras sobre o meu poeta preferido, mas a melhor definição fora escrita por ele mesmo.

 “Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro — o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo — que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras”. (Mario Quintana, 1984)



terça-feira, 2 de junho de 2015

"Ser criança", uma poesia de Laenya Romeiro.


Como é engraçado ser criança, 
crianças morrem de medo do escuro,
e por incrível que pareça, da solidão.
Crianças choram para não dormirem sozinhas,
dão birra para os pais não saírem do quarto 
quando apagam a luz.
Ah, como é bom ser criança!
 E como é assustador descobrir que engraçado é crescer,
 ter que conviver com solidões bem piores 
e partidas que nos deixam tão no escuro 
quanto uma luz apagada no quarto.
Como é luz ser criança,
 daquelas que clareiam a nossa vida 
quando nos deparamos com a solidão diária de 
ter que crescer.

Escrito por Laenya Romeiro, uma publicitária do coração enorme.

É preciso contar e ouvir histórias

Foto - Beatriz Ferreira

  Ana Marize Solino e Thereza Maria Lucciola são contadoras de Histórias em Brasília. Definir apenas um motivo para elas contarem histórias seria impossível, seus objetivos para com o público são muitos. Em uma geração acelerada em que o ouvir se torna cada vez mais difícil, parar e escutar uma história é um momento glorioso. Para Thereza, as crianças e adultos se recordam de lembranças afetivas e se identificam com o personagem, assim como as pessoas se aproximam uma das outras ao ouvir as histórias repletas de lições vida. Ana Marize, assim como Thereza, defende que há necessidade de viver a fantasia. Para ela, se não vivenciarmos a fantasia no momento certo, haverá outros escapes na juventude.

  Em um castelo sombrio, vê-se a luz da fogueira que iluminava os olhos atentos a um ser. Não era uma onça faminta, tampouco uma hiena carnívora querendo se divertir, era um ser de olhos tão grandes e a boca também. Andava pelo jardim, contando assim: Era uma vez, uma garotinha que estava levando leite e pão para sua avó. No caminho pela floresta, um lobo perguntou a ela o seu destino. A garotinha respondera que estava indo à casa da vovó. O lobo chegou na casa primeiro e devorou a avó. Colocou seu sangue em uma garrafa e a carne em um prato, comeu satisfatoriamente e guardou as sobras na despensa. Vestiu a camisola da senhora e deitou-se, quando a garotinha entra na casa, o lobo diz para ela se alimentar com vinho e carne que estão na despensa. A garota comeu, e jogou suas roupas na lareira quando disse: Como a senhora é peluda vovó. O lobo retornou, é para te esquentar. Que unhas grandes a senhora tem. È para me coçar. Que dentes grandes a senhora tem. É para te devorar.

  O castelo era um café em Brasília, a luz provinha de lâmpadas no teto. Os olhos atentos eram de uma estudante de jornalismo, que curiosamente perguntou a primeira versão da história de Chapéuzinho Vermelho por Charles Perrault. O ser era uma talentosa contadora de histórias que nasceu na capital do país,  começou os seus primeiros trabalhos contando histórias para crianças na biblioteca da escola em que trabalhava como professora. Formada em Letras pela UniCEUB (centro universitário de Brasília) e especialista em psicopedagogia. A contadora de histórias é Ana Marize Solino. Ana é um nome hebraico que significa cheia de graça. Marize vem do Latim e significa: proveniente de marte. È uma devida explicação para histórias que fazem rir, e inevitavelmente, transportam a imaginação para outro planeta. 

  Díspar da versão dos irmãos Grimm sobre a história de chapéuzinho vermelho, o conto de Perrault pode ser assustador. Mas desde os séculos passados, os contos de fadas carregam um sentido moral, assim como a fábula. Expressões que são utilizadas em dias contemporâneos vieram de épocas distantes. A velha frase da mãe que diz para seu filho não falar com estranhos, remete a uma garota com capuz vermelho que parou seu percurso para falar com um lobo mal. Porém, contos de fadas não são só advertências. A imaginação é explorada sem constrição, os contos fazem sonhar e os contadores fazem sonhadores. 

  Ana Marize adentrou no universo das historias não apenas por façanhas do destino, mas ela conta que o mesmo destino trouxe do Rio de Janeiro para Brasília, a professora Thereza Maria. “Ela (Thereza) hoje está com 75 anos e em 1995, fui fazer uma curso com ela e o grupo Confabulando. Thereza Maria viu o meu potencial e de mais dois amigos, então nós formamos um grupo com o nome: Imaginários”. 

  “A Ana participou da minha oficina para formação de contadores de histórias e eu convidei ela, Tatiana e Damasio para formar um grupo. Formamos o nosso primeiro grupo e a experiência foi maravilhosa” Conta Thereza. O grupo Imaginários se apresentava em feiras, creches e escolas, como também abriam palestras. O grupo se extinguiu, mas Thereza formou outro grupo com crianças e adolescentes depois de imaginários, ela completa 17 anos nesse trabalho. 

  Ana descobriu que se tornou uma contadora de histórias quando por um castigo da diretora na escola em que trabalhava, fez com que ela saísse da sala de aula e fosse para a sala de leitura na biblioteca. Contando histórias, ela resolveu cursar uma oficina nesta área; foi quando, encontrou Thereza Maria contando a sua experiência e formando mais contadores. Thereza veio da casa da leitura, em Botafogo – RJ, onde começou o movimento de cursos para contadores de histórias. A casa da leitura se extinguiu, mas Thereza trouxe a proposta para Brasília.

  A contação de histórias promove o incentivo à leitura, e busca aproximar as crianças com a literatura. Mas Ana Marize ainda acrescenta “se você não mostra de onde veio a tua fonte, vai fugir do objetivo de todo contador de histórias: promover a leitura. Eu quero que a criança ou o adulto que ouça a minha história saiba de onde eu tirei e se ele sentir vontade de ouvir essa história novamente, ele vai saber onde encontrar”. Como contar histórias aproxima os ouvintes da leitura, também busca o exercício da ética. A honestidade em contação de histórias é exercida à cada crédito que um contador transfere aos criadores das histórias, e especialmente, fazem os ouvintes não pararem de ouvir aquele único conto. Despertam a curiosidade de quem está na plateia, para que estes também possam desenvolver outras histórias.

  “Eu trabalho só com a oralidade, não uso Mascara. Nós tentamos resgatar o contador de histórias da antiguidade. Nos primórdios dos tempos, eles usavam somente a palavra e com todo o seu charme, para encantar as pessoas.” Disse Thereza. Ana Marize também afirma que quando se conta uma história é importante olhar nos olhos de quem está ouvindo e trabalhar a expressão do corpo e da voz. Compartilhando a visão de Thereza, a Ana Marize ainda afirma: “Os gestos têm de ser condizentes com a história, não pode ser algo muito espalhafatoso.” Para que assim, o foco esteja nas palavras de quem a diz.

  “Se eu falar sobre a chapéuzinho vermelho, você cria a história. Mas se você ver na televisão, é aquilo e pronto” Disse Thereza, que significa natural de Tera. Maria significa a soberania e pureza. Quem traz a soberania para a terra com histórias que despertam o mais puro olhar de um ser. Mulheres, professoras, contadoras de histórias. Pessoas como elas, como todo ser humano apaixonado por palavras, ensina que a contação de histórias não é único direito de quem as contam, mas os contadores de histórias dão esse direito a quem as ouve também. A imaginação transborda a realidade, a criatividade ousa passear e o coração anda junto com o falar. 

Roça


Eu gosto de carro velho. 
De fotografar folhas caídas no chão, 
do que as árvores erguidas sobre a terra. 
Gosto do som da chuva que embaça o vidro do carro, 
de dedos que tentam enxugá-los. 
Fotografo o lugar onde moro, 
tão afastado de todos onde há tudo. 
Mas não trocaria o horizonte do cerrado. 
Gosto mais do som de pássaros
do que a música que os homens inventaram. 
Minha câmera mira na casa do joão-de-barro.
 Eu gosto do som que o vento faz, 
mais assustador que qualquer filme de terror. 
Esqueço a câmera quando vejo uma estrela no céu, 
talvez seja essa a intenção delas.
Nunca serem gravadas. 
Para que, no outro dia, 
não queiramos vê-las pela tevê,
mas na moda antiga,
ao vivo.

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