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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Enquanto o Mario sorri...

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Meu poeta preferido é o Mario. Foi um pioneiro na poesia falada, de roça, cantada em festinhas infantis. Como o Quintana, o Mario Ribeiro era fã da simplicidade. Resolveu viver a vida em uma casa pequena com um grande quintal. Acordava cedo, e se pudesse já almoçava pela manhã para passar o dia naquela roça que batia de frente à sua janela. Mas, não parava em casa.


Tinha uma arara. Alguns bois e vacas, já teve ovelha. Saia pra cidade para arranjar a comida dos porcos. Era amigo de todo mundo, cumprimentava os moços na esquina. E aquele povo, admirava o tanto que Mario sorria... Se perguntavam,porque o cara da mansão estava sempre de cara fechada, e esse Sr. Mario, rindo atoa. Que vida boa ele tinha. Mas ele tinha os seus problemas, a vida só era boa porque ele era bom. Ele foi inspiração para quem o via em seu espaço que parecia um sertão. Nunca o vi de roupa nova, mas ele se renovava à cada manhã porque aquele sorriso não ia embora.


  Nasceu na roça, em Minas Gerais. Viu televisão pela primeira vez quando foi se alistar. Se impressionou com a tecnologia um pouco ruim para esta geração. Casou com minha vó, teve dois filhos. Mas depois, viraram grandes amigos. Conheceu uma mulher, depois teve mais dois filhos. E de netinhos, teve muitos para ele cantar nas festinhas de aniversário.

Sem diploma de um poeta, sua vida foi uma poesia.

O seu olhar refletia a alma de uma criança, usava palavras mansas e nos abraçava como se aquela fosse a ultima oportunidade de abraçar. Da adversidade, ele transformava em felicidade... Rindo quando não há nenhuma razão. "Tem dó!" era o que ele dizia quando não ligava pra situação. "Você vai aonde?" era o que ele me perguntava quando eu dizia Oi vô.

  Também me ensinou à nunca ter medo do boi da cara preta, só pelo motivo dele cantar a cantiga com a sua típica expressão facial. "Boi, Boi, Boi da cara preta. Pega essa menina que tem medo de careta"; Aquela careta era mesmo é engraçada, não dava medo nenhum.

Ele dizia que ia chover, se por acaso eu acordasse cedo. Sempre fui enrolada, mas quando eu acordava e olhava pela janela, ele sempre estava no mesmo lugar: no banquinho velho do galpão. Ninguém sabia o que ele tanto olhava, mas creio que era bom, porque aquele sorriso não ia embora não.

  O Mario nunca vai ir embora. Quem teve a sorte de o conhecer vai querer um dia aprender como ser feliz com pouco e em como viver a felicidade quando não se tem motivos para isso.
Meu querido vô e amigo,

A poesia da sua vida está registrada em meu coração.
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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Quintanares de Mario

Ilustração de Marcos Guilherme 

"Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo..."


  No quarto 217 do Hotel Majestic, JB se impressionara com seu novo quarto que tinha até cozinha. Pois vinha de um quarto bem menor no Hotel Royal. Mesmo assim, o poeta dizia que vivia em si mesmo, ele poderia até não perder as suas coisas ali. Afinal, o espaço ao seu redor não importava. E nem ultrapassaria o grande interior daquele encantador de pássaros. Talvez ele fora um passarinho quando pessoas estavam apenas, passeando.

"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..."


  Mario Quintana, com o primeiro pseudônimo no jornal da cidade como "JB", era poeta e jornalista mesmo que o pai quisesse um filho doutor. Nasceu em Alegrete (RS) e viveu um bom tempo em Porto Alegre. A infância do poeta mírim não fora tão alegre, porém ele a encontrou na literatura. O seu Celso Quintana contava pra todo mundo que era pai do JB. Mario, sem acento, fora um doutor de palavras que curavam.

"O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!"


  A noite de 30 de julho de 1906 ficou marcada como o nascimento de um ser que no futuro, se tornaria um dos grande Poetas, Jornalistas e tradutores brasileiros do século XX.  Sua primeira poesia foi publicada no Correio do povo - onde mais tarde, trabalhou durante muitos anos de sua vida. Depois de aprender francês e concluir seus estudos, Mario trabalhou em uma livraria mas logo retornou à sua cidade para ajudar na farmácia da família. O ano seguinte fora o ano mais triste para Mario, seus pais morreram. Mas no mesmo ano, ele ganhou a premiação no concurso de contos em um jornal de Porto Alegre e a publicação de seu poema em uma revista carioca. A dona Virginia e o seu Celso se orgulhariam do guri que eles ensinaram à escrever.

"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…"



  Já na década de 40, Quintana é bastante elogiado por intelectuais e recebe uma indicação na Academia Brasileira de Letras, porém perdeu para um ministro. Depois, para o atual presidente da ABL e mais tarde para um bom jornalista, mas que não tinha nem fama de escritor. Fora a maior injustiça da academia, mas quem disse que Mario se importou, pelo menos a sua criatividade não se afundou. E surgiu a bem sucedida resposta ao ocorrido, com o poeminha do contra:

"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!"

Poderia prolongar as palavras sobre o meu poeta preferido, mas a melhor definição fora escrita por ele mesmo.

 “Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro — o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo — que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras”. (Mario Quintana, 1984)



terça-feira, 7 de abril de 2015

uma história para contar

 

Nota da escritora: O grande jornalista, não só porque é o meu tio avô, Mauricio Cardoso presenteou o meu texto com as suas criticas. Portanto, a narrativa da história para contar foi alterada no dia 13 de abril de 2015.


  Na casa três de uma quadra três, Leide vive ao lado de seus livros empoeirados ao perfume das rosas que cuida com tanto amor. Nunca se viu um jardim tão acariciado, é cuidado há cada cinco minutos. Mas às vezes demora algumas horas para que ela varra as flores caídas no chão, Como no dia em que resolveu tirar a poeira dos livros. Sua neta estava ali do seu lado, observando aquele esforço em ler as letras miudinhas dos livros que sempre fizeram parte do seu cotidiano. Histórias eram narradas pela professora míope que não se negara em fazer as vozes mais esquisitas possíveis para contar sobre figuras achadas nos livros com cheiro de novo. Os ouvintes sequer haviam visto o personagem que Leide narrava, mas sabiam definir a aparência deles bem melhor que o produtor da adaptação ao cinema. Eram deficientes visuais. Mas a imaginação deles ia tão longe quanto os pássaros das histórias.

  “Qual a história desse desenho?” Foi a pergunta que Leide fez para a neta, anos atrás. A menina tinha, então, por volta de seus 8 anos, e fazia do lápis de cor a sua diversão no quintal da casa três. A avó sabia muito bem o que a criança desenhava, mas insistia em perguntar o que era. E dizia que ela deveria escrever. Com uma letra que se esforçava em aparentar-se bonita, mas que só com muito esforço daria para ler, a neta contava as histórias para uma contadora de histórias: sua avó. De tanto desenhar para depois explicar em forma de historinha, como a sua primeira referência em Cinderela, aquela letra foi melhorando. Posso dizer que não se tornou bela, mas para grande alegria sua tornou-se decifrável.

  A metade dos livros que estavam na estante, foi passada para uma caixa de papelão que Leide encontrou no canto do jardim. Os livros já estavam sem a poeira e mantinham o cheiro que, talvez, só aquele quintal possuía. Culpa das roseiras bem regadas. Mas aquela cena de Leide sentada ao pé da estante com livros de capa dura em seu colo, fez a neta lembrar dos dias que passara a sua infância ali escrevendo. Devido à contadora de histórias perguntar-lhe o significado dos desenhos coloridos entre rosa e lilás, assim, a neta escreveu. E desde então, ela nunca mais parou. "Vó, você se lembra da historinha da Bilu?" Leide lembrava, pois ela decorara. Depois que a neta transferiu para o papel as palavras sobre o seu desenho, a avó levou para seus alunos na escola de Brasília. Um lugar de árvores verdes como as grades, e flores amarelinhas espalhadas por todo o chão. Leide contava com muito vigor sobre a aliá Bilu. Uma elefanta que era caçoada por sua forma avantajada, mas que com seu bom coração e originalidade transformou os seres ao seu redor. Do jeito que Bilu era, ela jamais mudou. ”Que saudade daqueles sorrisos dos meus alunos ao ouvir a Bilu”.

  Leide é aposentada e assídua em trocar livros com as vizinhas e terminar um livreto de cruzadinha em poucos dias. Ela só usa a câmera fotográfica para tirar foto das estradas, e talvez a admire mais que a própria viagem. Nos tempos livres, ela borda toalhas para presentes natalinos e futuros enxovais dos netinhos. Netos que até tentam ensina-la à ser amigável com um computador, mas ela nega encarar qualquer tecnologia. Diz que estraga a vista. E volta ao seu lápis apontado cautelosamente, às lembranças dos tempos de uma professora que contou tantas histórias aos seus alunos. Mas que não deixa de contar histórias, porque até ela nunca deixou de fazer história na vida de cada um que ouse ouvi-la.

  Já com todos os livros reunidos dentro da caixa e entregues à neta, ela concluiu que estes livros que Leide um dia folheou para contar os segredos escritos nas páginas amareladas, vão ser passados para a próxima geração quando ficarem empoeirados. Essa história nunca vai acabar.

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