Da janela da sala, vejo minúsculos flocos de neve que desaparecem ao cair no chão. Desço depressa as escadas e sinto a neve, pela primeira vez, derretendo em meus dedos gelados.
Faltam alguns dias para a estação de inverno. Mesmo assim, a neve resolveu dar um alô antecipado. Coloco de volta as luvas e entro esbaforida em casa ao ouvir o meu celular tocar.
“Filha, manda vídeo da neve!”, disse minha mãe, que me lembrou dos dias em que assistíamos filmes de Natal juntas.
Os filmes de Natal sempre nos encantaram apesar dos roteiros se repetirem e de sabermos como será o final feliz.
Diferente dos filmes, o meu dia de Natal nunca teve neve, árvore ou biscoito de gengibre. Nem luzes no telhado ou um boneco de neve enfeitado.
Mas tinha salpicão e maionese de batata, além do tio que soltava a piada se era “pavê ou pacumê”.
Tinha amigo secreto e um parente que não gostava do presente. Também tinha o cachorro caramelo que fisgava o prato de comida de algum distraído.
Se minhas memórias de Natal fossem reproduzidas em um filme eu daria replay nas seguintes cenas:
Quando meu avô (que hoje mora no céu) me presenteou com um sapo de pelúcia falante e me deu um abraço. Eu daria uma pausa no abraço.
O momento em que meu pai cantava a música natalina que meu irmão apresentou na escola. Repetiria a cena dele e do meu irmão cantando juntos, no carro, de volta para casa.
A cena de minha mãe orando antes de comermos a ceia. Eu anotaria cada palavra que ela falou em sua oração.
A foto que minha avó me enviou mostrando seu vestido novo. E a minha avó paterna embrulhando comigo presentes do “amigo da onça”.
Todo ano vivemos o “final feliz” de um filme natalino quando nos reunimos com a nossa família. A vida real nos mostra que não é necessário um cenário perfeito e um roteiro bem escrito. Só precisamos estar perto (mesmo estando longe) de quem a gente ama.

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