terça-feira, 21 de abril de 2015

Brasília não está ficando velha; somos nós, os admiradores dela.

Fonte: ultimaparada.wordpress 
  
   Aos fins de semana, nós viajávamos para essa cidadezinha ao lado. Demorava alguns minutos para chegar e esta talvez era a melhor parte da viagem, pois não restava tempo nem para enjoar e ter de tomar um Dramim depois. Também era bom quando a saudade de casa apertava e em trinta minutos, estávamos de volta. Melhor ainda era parar no Beirute no meio da estrada e se lambuzar de quibe com limão. Logo depois, terminar de encher a barriga com as fatias de pizza mussarela no Dom Bosco.

  Quando viajávamos bem cedo em algum feriado, as panelas eram espalhadas na mesinha colorida de cimento do parque da cidade, a gente almoçava ali e depois os mais adultos aproveitavam o cochilo na rede pendurada entre as duas árvores típicas do cerrado, enquanto as crianças não perdiam a requisitada torre do parque (incluindo o meu pai). Me lembro do dia em que meu irmão menor empacou no meio da subida da torre colorida, tive de ir "salva-lo" mesmo com um medo danado.

  Recentemente fui visitar a torre que alimentou os traumas e a coragem da nossa infância, e percebi que ela diminuiu. Ou apenas foi eu que cresci... Queria tanto sentir aquele medo da torre, como antes. Ou apenas achar o meu anel que perdi ali. Era um daqueles de plástico que encontramos em festinhas de criança e na euforia dentro da torre, eu nunca mais o encontrei. Até tentei procurar nos meses que íamos visita-la. Que bobagem! mas isso era e ainda é, um dos meus itens preferidos nessa cidade.

  Mamãe também lembra das histórias de quando ela morava no Cruzeiro e andava de patins segurando nas pilastras do bloco. Toda vez que passamos em frente aos prédios quase iguais, ela repete a mesma história. Talvez hoje ela queria ter soltado as pilastras para assim, ter andado de patins de verdade. Ou apenas ela queira segurar aquelas pilastras novamente. Esse lugar também faz a vovó lembrar do dia que ela conheceu o seu primeiro amor, o meu vô era da mesma sala dela na escola pública do Cruzeiro, e então eles fugiam para paquerar no jardim ao lado.

   O papai viveu pouco ali, foi morar no entorno de Brasília e conheceu a mamãe. Foi aí que as viagens à capital tornaram-se de costume até hoje. Quantas lembranças essa cidade que nem é tão antiga, faz a gente se emocionar. Por 55 anos, esse céu nunca envelhece e nunca é o mesmo à cada dia. Eu poderia descrever milhões de situações que eu vivi com você minha Brasília. Tu moras ao lado, e mesmo assim, ainda é a minha viagem preferida.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Joaninha na janela



  Joana estava à beira da janela pensando em como era chato ter de ser exposta à uma máquina barulhenta sempre quando homens grandes passassem por ela - algo que eles chamam de fotografia.

Ela sabia muito bem que não era um bicho raro assim, mas que foi abençoada por suas pintinhas mais do que alguns besouros não muito queridos. Por vezes, era bom se sentir bela aos olhos de seres humanos tão apressados e ocupados. 

Mas, uma coisa que ela nunca entendeu era o fato de qualquer coisa que fosse menor do que os homens serem chamadas no diminutivo. Por que não trocam o 'joaninha' para Joana D'arc? Uma mulher que foi tão corajosa como aquela joana na beira da janela de um arranha-céu. 

A verdade é que joana não gostava nenhum pouco do "inha" criado pela nomenclatura Homo Sapiens e resolveu deixar uma carta aos humanos.

 — Para o calendário de vocês nós vivemos no máximo 180 dias. Pode parecer pouco para quem vive anos e anos, mas, enquanto estou vivinha da Silva, ou melhor, da D'arc, faço valer a pena os meus dias.

Paciência, ser humano. Vou te contar o por quê. 

Nós não perdemos tempo com maçãs pela metade. Nós a deixamos para as amigas larvas.

O itunes não nos faz falta. Apesar dos pássaros não serem fãs do nosso cheiro, ainda conseguimos ouvir o canto deles. 

Os Chefs de nossa espécie ainda não encontraram a receita de hambúrguer de pulgões, mas deixo bem claro que nossa dieta é fantástica. Comemos uma variedade de insetos e para ser bem exata, 200 por dia. Ao contrário de vocês, não acumulamos gordurinhas. 

Comida para nós nunca está ruim. Quem me dera se houvesse uma mosca na sopa... Já vocês, vejo reclamarem o tempo todo. Mais sal, menos sal. Cada um quer de um jeito! tenho até pena de quem usa aquele chapéu engraçado na cozinha. Ainda, nós disputamos o rango com um exército de formigas e temos de aguentar as vespas folgadas. 

Nós comemos tudo aquilo que é ruim para as plantas. É por isso que vocês possuem belos jardins. Essas nossas pintinhas não são atoa, elas dão a impressão de que somos venenosas às pragas destruídoras de jardins.

  Embora vivamos pouco mais de 5 meses, não deixamos de conhecer o mundo e aproveitar os países frios para hibernar. Minha amiga Margarida me manda folhas postais da Argentina e o casal Lady e Bug a neve de Central Park. Já, a coccinelle envia receitas diferentes de polénouille da França. É uma delicia, por sinal. 

E, antes que eu me esqueça, somos grandes dentro de nosso pequeno tamanho.


Tchauzinho,
Joana 

terça-feira, 7 de abril de 2015

uma história para contar

 

Nota da escritora: O grande jornalista, não só porque é o meu tio avô, Mauricio Cardoso presenteou o meu texto com as suas criticas. Portanto, a narrativa da história para contar foi alterada no dia 13 de abril de 2015.


  Na casa três de uma quadra três, Leide vive ao lado de seus livros empoeirados ao perfume das rosas que cuida com tanto amor. Nunca se viu um jardim tão acariciado, é cuidado há cada cinco minutos. Mas às vezes demora algumas horas para que ela varra as flores caídas no chão, Como no dia em que resolveu tirar a poeira dos livros. Sua neta estava ali do seu lado, observando aquele esforço em ler as letras miudinhas dos livros que sempre fizeram parte do seu cotidiano. Histórias eram narradas pela professora míope que não se negara em fazer as vozes mais esquisitas possíveis para contar sobre figuras achadas nos livros com cheiro de novo. Os ouvintes sequer haviam visto o personagem que Leide narrava, mas sabiam definir a aparência deles bem melhor que o produtor da adaptação ao cinema. Eram deficientes visuais. Mas a imaginação deles ia tão longe quanto os pássaros das histórias.

  “Qual a história desse desenho?” Foi a pergunta que Leide fez para a neta, anos atrás. A menina tinha, então, por volta de seus 8 anos, e fazia do lápis de cor a sua diversão no quintal da casa três. A avó sabia muito bem o que a criança desenhava, mas insistia em perguntar o que era. E dizia que ela deveria escrever. Com uma letra que se esforçava em aparentar-se bonita, mas que só com muito esforço daria para ler, a neta contava as histórias para uma contadora de histórias: sua avó. De tanto desenhar para depois explicar em forma de historinha, como a sua primeira referência em Cinderela, aquela letra foi melhorando. Posso dizer que não se tornou bela, mas para grande alegria sua tornou-se decifrável.

  A metade dos livros que estavam na estante, foi passada para uma caixa de papelão que Leide encontrou no canto do jardim. Os livros já estavam sem a poeira e mantinham o cheiro que, talvez, só aquele quintal possuía. Culpa das roseiras bem regadas. Mas aquela cena de Leide sentada ao pé da estante com livros de capa dura em seu colo, fez a neta lembrar dos dias que passara a sua infância ali escrevendo. Devido à contadora de histórias perguntar-lhe o significado dos desenhos coloridos entre rosa e lilás, assim, a neta escreveu. E desde então, ela nunca mais parou. "Vó, você se lembra da historinha da Bilu?" Leide lembrava, pois ela decorara. Depois que a neta transferiu para o papel as palavras sobre o seu desenho, a avó levou para seus alunos na escola de Brasília. Um lugar de árvores verdes como as grades, e flores amarelinhas espalhadas por todo o chão. Leide contava com muito vigor sobre a aliá Bilu. Uma elefanta que era caçoada por sua forma avantajada, mas que com seu bom coração e originalidade transformou os seres ao seu redor. Do jeito que Bilu era, ela jamais mudou. ”Que saudade daqueles sorrisos dos meus alunos ao ouvir a Bilu”.

  Leide é aposentada e assídua em trocar livros com as vizinhas e terminar um livreto de cruzadinha em poucos dias. Ela só usa a câmera fotográfica para tirar foto das estradas, e talvez a admire mais que a própria viagem. Nos tempos livres, ela borda toalhas para presentes natalinos e futuros enxovais dos netinhos. Netos que até tentam ensina-la à ser amigável com um computador, mas ela nega encarar qualquer tecnologia. Diz que estraga a vista. E volta ao seu lápis apontado cautelosamente, às lembranças dos tempos de uma professora que contou tantas histórias aos seus alunos. Mas que não deixa de contar histórias, porque até ela nunca deixou de fazer história na vida de cada um que ouse ouvi-la.

  Já com todos os livros reunidos dentro da caixa e entregues à neta, ela concluiu que estes livros que Leide um dia folheou para contar os segredos escritos nas páginas amareladas, vão ser passados para a próxima geração quando ficarem empoeirados. Essa história nunca vai acabar.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Quando surge a solidão

  

  Quando nascemos já enfrentamos a solidão. Somos obrigados à deixar o espaço aconchegante da barriga de quem nos criou para cortarem o cordão umbilical, e ainda receber um tapa. E então pela primeira vez, nos colocam para dormir num quadrado de algodão para que nunca mais voltar para a antiga casa na mamãe. Até que com o tempo as coisas não ficam tão ruins, pelo menos ganhamos um leite exclusivo e um berço com fru-fru cor de rosa ou azul.

 Enquanto não sabemos que uma colher serve para comer e não para brincar de aviãozinho, não nos sentimos tão sós. E quando acordamos num lugar escuro e sem nenhum barulho, a nossa arma é soltar o choro para expulsar a solidão e ganhar um colo no meio da noite. Vai tudo bem. Mas na inocência de uma criança soltamos a primeira palavra. E a palavra nos faz ter que ir para um lugar chamado escola, ou reunião de solitários. Porque os grandões não entendem que quando a primeira palavra é mamãe e papai era porque queríamos ficar com eles em nosso cantinho secreto, e não ter de passar a tarde com mais um monte de crianças solitárias para aprender mais e mais palavras.

 Se eu soubesse disso antes iria apenas curtir a minha chupeta. Era tudo tão novo, e de "novo" eu só gostava dos brinquedos. Quando me acustumo com a tia de cabelos cacheados que ensinava o alfabeto e no fim da aula nos dava pirulitos de cereja, no ano seguinte surgia uma outra professora de cabelos alisados. Será que os adultos estavam brincando com a gente? eu logo percebi que eles não sabem brincar. E quanto mais crescemos e alcançamos a marcação que mamãe faz na parede, fica pior.

  O que era brincar de massinha nas mesas coloridas, de repente, fica cinza e somos obrigados à ocupar o lugar da professora. Temos que ficar em pé na frente da turma, dizer todas as palavras que aprendemos nos últimos anos para que o professor decida se passamos para o próximo nível ou não. E no fim, temos que responder um papel de má aparência que eles chamam de prova. Bela vingança, grandões.

 Um dia aquelas crianças solitárias viram adultos e os grandões somos nós. Inventamos à cada dia uma maneira de enganar a solidão e os caminhos são muitos. Uns põem em Deus, outros nas pessoas e outros nas ocasiões. O que os adultos tem em comum é o medo da solidão. A gente sabe que um dia vai partir, mas quando alguém que afastou a solidão de nós resolve ir embora, nós não aceitamos. Nós choramos. E a solidão mais uma vez, volta. Porém, se não fosse a solidão, sair do ninho seria em vão. Correr atrás do infinito seria utopia e a felicidade não seria tão almejada após a tristeza passar. Por isso, os adultos resolvem criar formas de um futuro melhor para a próxima geração porque só quem enfrentou a solidão naquele corte do cordão pode achar a solução.

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