
Ontem fui à pizzaria para a comemoração do aniversário do meu pai. Aniversário é só uma vez por ano, e mesmo que fossem mais vezes, minha família não perderia um dia especial para comer pizza. Ou até inventaria um. Minha mãe deveria ter colocado o nome do meu irmão de calabresa, e o meu de queijo. Piadinha sem graça, mas o fato é que em qualquer dia dito especial, a fuga é diretamente para a pizzaria. Não posso negar que eu adoro isso, gosto até das calorias! (contanto que seja de mussarela). Mas então, no special day fomos para a pizzaria logo ali na esquina (não era tão perto, mas soou bonito), e começamos com a algazarra de cadeiras. Nas mesas, estavam misturadas cadeiras acolchoadas e outras duras pra dedéu, é claro que a gente quer a primeira opção. Como era um dia que não é como um dia qualquer do ano, resolvemos inovar. Ao invés da calabresa, pedimos lombo. Tá, inovação não é lá nossa praia. Na harmonia do som de garfos batendo no prato, ainda dava para escutar o Bonner no Jornal nacional. E eram aquelas típicas noticias dos "dias de hoje" como diz a minha mãe, mas acho que ela tá certa em suas comparações contemporâneas, privilegiando a época dela. Até o marketing das propagandas de antigamente era mais divertido, pipoca e guaraná era um sucesso. Guaraná tinha que ser Dolly, um sabor brasileiro. Sem contar que na minha infância 1 centavo ainda era grana, hoje nem 5 centavos dá para comprar uma balinha, me revolto com esse papo de 3 balas por 20 centavos.
Mas voltando aos dias de hoje, enquanto estávamos tranquilos ao som de garfos, de repente veio um barulho de tiros na rua. Foram em torno de 5 seguidos. As pessoas se entre olharam, quando o garçom começou a correr para dentro da cozinha. Não deu outra que todo mundo saiu correndo também, foram tudo pro banheiro. Eram 2 banheiros para umas cem pessoas, não deu outra que as mães malucas trancaram as crianças lá dentro. Maluca eu não sei né, só quem é mãe entenderá. Já não era só o som de garfo e faca, virou uma orquestra aos gritos dos comedores de pizza. Contando com os gritos do garçom também, se tivesse um concurso de medrosos, talvez ele ganharia. Mas antes do povo correr para as privadas, minha mãe ficou empurrando a gente pra debaixo da mesa. Meu irmão caçula ainda estava sem entender, quando puxei seu cabelo (quem mandou ter penteado Black power) e saímos correndo para um lugar que aparentava ser mais seguro, qualquer lugar era mais seguro que debaixo daquela mesa.
Enquanto isso, havia uma chuva de molho de tomate e queijo derretido, alguns foram mais espertos e correram com a pizza pendurada na boca mesmo. Quando chegamos ao esconderijo que não estava com um cheiro muito bom, procurei pelo meu pai e ele não estava lá. Foi quando olhei para o meu irmão do meio, e ele disse para mim ficar onde eu estava que ele sairia à procura do pai (pareceu uma cena do titanic, só faltou o jack), foi quando a minha curiosidade de jornalista amadora me fez sair daquele corredor, quando olhei em volta, só vi chinelo havaiana espalhados pelo chão. E o meu pai estava na rua tentando entender o ocorrido, de onde herdei a genética curiosa, só não herdei a coragem dele. Voltei para trás. Nisso, as pessoas foram sendo movidas até onde estavam as mesas (e as pizzas), o odor do banheiro até que ajudou. Nem para colocar um
Bom ar ali.
Até que tudo ficou em silencio (exceto o choro
rô das crianças trancadas no banheiro, coitadas) e meu pai e alguns machões tremendo as pernas voltaram da rua para acudir suas mulheres e filhos desesperados (mais assustados mesmo com suas próprias mães). Meu pai viu o que aconteceu, e era bombinha. B-o-m-b-i-n-h-a. Agora me pergunto como todas as pessoas ali pensaram que bombinha era tiro. Alguns acharam que a culpa foi do garçom; onde um vai, todo mundo vai atrás. Minha mãe culpa o jornal que só fala em tragédia, alguns pensadores no local concordam com a justificativa dela: o perigo já está no subconsciente das pessoas. Eu só acho que a culpa foi do dono da padaria do lado, que soltou bombinha para expulsar os cachorros (fiquei sabendo quando fui comprar pão). E é assim que mais um dia especial termina, só ri agora que acabou o fato, porque na hora a "sofrência" foi danada. Foi pior que as músicas do pablo.
Vivido e escrito por Beatriz Ferreira