Último ano do ensino médio. È comum que qualquer estudante fique pensativo com as tantas opções de futuras profissões. Eu já estava acostumada com minhas indecisões. Com 7 anos eu queria ser bailarina, até que entrei para a aula de ballet, mas eu era tão desengonçada que a professora resolveu me dar uns lápis de cor e alguns papéis porque ela ainda tinha esperança que eu seria melhor com as mãos. E fui. Só ia para aquela aula chata para pintar e desenhar, até que resolvi ser pintora. Entrei para a aula de pintura, a única aula que encontrei por perto foi pintar panos de prato. Mas com certeza era melhor do que dançar. Só que pintar panos dava um trabalhão, quando eu e meus irmãos ganhamos um computador (aqueles bem grandões, ainda era inicio do século XXI minha gente), encontrei um pedaço do céu chamado paint, o problema foi que estraguei todas as fotos que estavam arquivadas da família, fazia bigodinhos e dente preto nos primos chatos e coloria todos os cabelos do pessoal com o famoso pincel do paint. Até que ouvi falar de uma profissão incrível chamada Webdesign, mas para isso eu precisaria treinar. Fiz um blog, e aprendi as coisinhas complicadinhas de HTML. Só que Blog não era só futricar no layout, eu precisaria escrever. Eu já fazia histórias para os alunos da minha vó, ela era professora de braile aos deficientes visuais. Eu adorava ir com ela até à escola e observar o jeito que ela ensinava e contava as minhas histórias, era lindo. Uma que eu lembro bem, era a "Aliá Bilu", um elefante diferente da maioria. Ainda fazia muitos amigos por lá, eles eram diferentes. Isso que eu gostava.
A minha quase jornada me levou à optar por cursos que confesso que poucas pessoas da minha sala queriam, e ao que meu pai queria também. Ele sempre quis ter um filho médico, um sonho comum de alguns pais. Mas a verdade é que eu nunca me identifiquei com as profissões de elite, embora eu admirasse. Com 16 anos, pensei em realizar o sonho do meu pai. Quando contei que estudaria para passar em medicina (o engraçado é que a gente nunca fala "vou fazer medicina" e sim "vou estudar pra fazer medicina", já tinha noção que a demanda é grande), o meu pai pulou de alegria. Até que fiquei um pouco mais feliz em optar por Oftalmologia, sempre fui cegueta e toda vez que eu ia ao oftalmologista tinha uns desenhos incríveis do interior dos olhos na parede do consultório.
No 3º ano do ensino médio, entrou uma professora de redação novata por lá. Ela já era senhora, e nos primeiros dias de aula já foi zoada porque escreveu algumas palavras sem acento no quadro. Os pais politicamente corretos (inclusive a minha tia, mãe do meu primo que fiz bigode no paint) foram correndo para a direção reclamar sobre a tal calamidade. Na primeira prova do bimestre, bem na primeira folha, tinha um texto sem autoria. E era sensacional e muito introspectivo. Era um daqueles textos que eu não perdia a maioria do meu tempo tentando achar as palavras no dicionário, ou por sorte tentava decifrar algumas das palavras que os autores resolviam inventar para ferrar estudantes preguiçosos. Porém, o texto era simples e inteligente. No fim da aula, fui perguntar à ela quem era o autor daquele texto, e ela respondeu com um sorriso amarelo: eu.
Em uma das reuniões da família na pizzaria (dessa vez foi diferente do episódio da rebelião do molho de tomate, ainda bem.), o meu primo bigodudo virtualmente foi caçoar da nova professora de redação, insinuando que ela fosse burra. E perguntei se ele havia lido sequer algo que ela tinha escrito, e a resposta óbvia de senso comum foi "não". E era isso que 90% da escola fazia. Não me importava em participar da quantidade marginal nessa porcentagem, eu nunca gostei das professoras prepotentes que não escreviam uma virgula fora do lugar, nem por corriqueiros erros do cotidiano. Quando em um dia qualquer da semana, fui até a professora novata e perguntei se minhas redações eram boas o bastante para fazer um curso voltado à isso. Ela respondeu que faltava mais. E era a melhor resposta à se ouvir. Os beatles foram titulados como fracassados no inicio da carreira, e einstein reprovou umas boas vezes. Esse não era o meu discurso de motivação, mas eu entendi que quem se acha bom o bastante, não vai à lugar algum. E como diz o poeta Horácio, a adversidade desperta capacidades que em circunstâncias favoráveis teriam ficado adormecidas.
Em um dia qualquer e frio na escola, na aula de redação, um aluno típico do fundão disparou à chamar a professora de velha e outras palavras ruins. Olhei para os olhos dela, e estava cheios de água. Ela abaixou a cabeça, e a turma percebeu que ela estava chorando. Ela não era fraca, mas muito sentimental. Eu fiquei comovida com a cena, e quando cheguei em casa, escrevi uma carta para ela. Para conforta-la e reanima-la embora ninguém mais acreditasse nela. No outro dia que entreguei a carta, a diretora veio falar comigo. Não entendi porque estava lá e comecei à pensar no que eu havia feito de errado, mas ela disse que a professora ficou muito feliz e que o mundo precisava de pessoas como eu. Voltei pra sala, e pensei que o mundo só precisava de mais amor. Um sentimento que a professora tinha, mas as pessoas só queriam ver o seu diploma.
Depois de conversas com a professora, notei quanta bagagem cultural ela tinha. Não eram conhecimentos técnicos, mas experienciais. Ela recusara durante a vida boas propostas para assim trabalhar em escolas do interior. Ela foi um exemplo pra mim. Ela não tinha um título na academia de letras, mas escrevia com o coração. Eu tenho o sonho de fazer um doutorado, mas do que adianta ter isso e não cumprimentar o porteiro? Durante todo o ano, ela dizia que eu precisaria melhorar. E no mês de dezembro, na última prova de redação ela deixou um recado na minha prova, não era que eu precisava melhorar, desta vez ela me elogiou. Foi o elogio mais sincero que havia recebido, eu acreditei no talento que ela disse que eu tinha. Ela também me desejou boa sorte. Como sempre fui uma manteiga derretida, abracei ela e chorei. Quanto aprendizado tive com aquela mulher, nunca esqueci que eu sempre preciso melhorar.
A verdade é que eu não escolhi medicina, resolvi abandonar os sonhos do meu pai para seguir os meus. E a reação dele foi melhor que os pulos de alegria, foi uma alegria em ver que eu estava feliz. Isso não tem preço para qualquer pai.
Beatriz Ferreira
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