terça-feira, 14 de abril de 2015

Joaninha na janela



  Joana estava à beira da janela pensando em como era chato ter de ser exposta à uma máquina barulhenta sempre quando homens grandes passassem por ela - algo que eles chamam de fotografia.

Ela sabia muito bem que não era um bicho raro assim, mas que foi abençoada por suas pintinhas mais do que alguns besouros não muito queridos. Por vezes, era bom se sentir bela aos olhos de seres humanos tão apressados e ocupados. 

Mas, uma coisa que ela nunca entendeu era o fato de qualquer coisa que fosse menor do que os homens serem chamadas no diminutivo. Por que não trocam o 'joaninha' para Joana D'arc? Uma mulher que foi tão corajosa como aquela joana na beira da janela de um arranha-céu. 

A verdade é que joana não gostava nenhum pouco do "inha" criado pela nomenclatura Homo Sapiens e resolveu deixar uma carta aos humanos.

 — Para o calendário de vocês nós vivemos no máximo 180 dias. Pode parecer pouco para quem vive anos e anos, mas, enquanto estou vivinha da Silva, ou melhor, da D'arc, faço valer a pena os meus dias.

Paciência, ser humano. Vou te contar o por quê. 

Nós não perdemos tempo com maçãs pela metade. Nós a deixamos para as amigas larvas.

O itunes não nos faz falta. Apesar dos pássaros não serem fãs do nosso cheiro, ainda conseguimos ouvir o canto deles. 

Os Chefs de nossa espécie ainda não encontraram a receita de hambúrguer de pulgões, mas deixo bem claro que nossa dieta é fantástica. Comemos uma variedade de insetos e para ser bem exata, 200 por dia. Ao contrário de vocês, não acumulamos gordurinhas. 

Comida para nós nunca está ruim. Quem me dera se houvesse uma mosca na sopa... Já vocês, vejo reclamarem o tempo todo. Mais sal, menos sal. Cada um quer de um jeito! tenho até pena de quem usa aquele chapéu engraçado na cozinha. Ainda, nós disputamos o rango com um exército de formigas e temos de aguentar as vespas folgadas. 

Nós comemos tudo aquilo que é ruim para as plantas. É por isso que vocês possuem belos jardins. Essas nossas pintinhas não são atoa, elas dão a impressão de que somos venenosas às pragas destruídoras de jardins.

  Embora vivamos pouco mais de 5 meses, não deixamos de conhecer o mundo e aproveitar os países frios para hibernar. Minha amiga Margarida me manda folhas postais da Argentina e o casal Lady e Bug a neve de Central Park. Já, a coccinelle envia receitas diferentes de polénouille da França. É uma delicia, por sinal. 

E, antes que eu me esqueça, somos grandes dentro de nosso pequeno tamanho.


Tchauzinho,
Joana 

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