quarta-feira, 1 de abril de 2015

Quando surge a solidão

  

  Quando nascemos já enfrentamos a solidão. Somos obrigados à deixar o espaço aconchegante da barriga de quem nos criou para cortarem o cordão umbilical, e ainda receber um tapa. E então pela primeira vez, nos colocam para dormir num quadrado de algodão para que nunca mais voltar para a antiga casa na mamãe. Até que com o tempo as coisas não ficam tão ruins, pelo menos ganhamos um leite exclusivo e um berço com fru-fru cor de rosa ou azul.

 Enquanto não sabemos que uma colher serve para comer e não para brincar de aviãozinho, não nos sentimos tão sós. E quando acordamos num lugar escuro e sem nenhum barulho, a nossa arma é soltar o choro para expulsar a solidão e ganhar um colo no meio da noite. Vai tudo bem. Mas na inocência de uma criança soltamos a primeira palavra. E a palavra nos faz ter que ir para um lugar chamado escola, ou reunião de solitários. Porque os grandões não entendem que quando a primeira palavra é mamãe e papai era porque queríamos ficar com eles em nosso cantinho secreto, e não ter de passar a tarde com mais um monte de crianças solitárias para aprender mais e mais palavras.

 Se eu soubesse disso antes iria apenas curtir a minha chupeta. Era tudo tão novo, e de "novo" eu só gostava dos brinquedos. Quando me acustumo com a tia de cabelos cacheados que ensinava o alfabeto e no fim da aula nos dava pirulitos de cereja, no ano seguinte surgia uma outra professora de cabelos alisados. Será que os adultos estavam brincando com a gente? eu logo percebi que eles não sabem brincar. E quanto mais crescemos e alcançamos a marcação que mamãe faz na parede, fica pior.

  O que era brincar de massinha nas mesas coloridas, de repente, fica cinza e somos obrigados à ocupar o lugar da professora. Temos que ficar em pé na frente da turma, dizer todas as palavras que aprendemos nos últimos anos para que o professor decida se passamos para o próximo nível ou não. E no fim, temos que responder um papel de má aparência que eles chamam de prova. Bela vingança, grandões.

 Um dia aquelas crianças solitárias viram adultos e os grandões somos nós. Inventamos à cada dia uma maneira de enganar a solidão e os caminhos são muitos. Uns põem em Deus, outros nas pessoas e outros nas ocasiões. O que os adultos tem em comum é o medo da solidão. A gente sabe que um dia vai partir, mas quando alguém que afastou a solidão de nós resolve ir embora, nós não aceitamos. Nós choramos. E a solidão mais uma vez, volta. Porém, se não fosse a solidão, sair do ninho seria em vão. Correr atrás do infinito seria utopia e a felicidade não seria tão almejada após a tristeza passar. Por isso, os adultos resolvem criar formas de um futuro melhor para a próxima geração porque só quem enfrentou a solidão naquele corte do cordão pode achar a solução.

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