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| Ilustração de Marcos Guilherme |
"Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo..."
No quarto 217 do Hotel Majestic, JB se impressionara com seu novo quarto que tinha até cozinha. Pois vinha de um quarto bem menor no Hotel Royal. Mesmo assim, o poeta dizia que vivia em si mesmo, ele poderia até não perder as suas coisas ali. Afinal, o espaço ao seu redor não importava. E nem ultrapassaria o grande interior daquele encantador de pássaros. Talvez ele fora um passarinho quando pessoas estavam apenas, passeando.
"Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti..."
Mario Quintana, com o primeiro pseudônimo no jornal da cidade como "JB", era poeta e jornalista mesmo que o pai quisesse um filho doutor. Nasceu em Alegrete (RS) e viveu um bom tempo em Porto Alegre. A infância do poeta mírim não fora tão alegre, porém ele a encontrou na literatura. O seu Celso Quintana contava pra todo mundo que era pai do JB. Mario, sem acento, fora um doutor de palavras que curavam.
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!"
A noite de 30 de julho de 1906 ficou marcada como o nascimento de um ser que no futuro, se tornaria um dos grande Poetas, Jornalistas e tradutores brasileiros do século XX. Sua primeira poesia foi publicada no Correio do povo - onde mais tarde, trabalhou durante muitos anos de sua vida. Depois de aprender francês e concluir seus estudos, Mario trabalhou em uma livraria mas logo retornou à sua cidade para ajudar na farmácia da família. O ano seguinte fora o ano mais triste para Mario, seus pais morreram. Mas no mesmo ano, ele ganhou a premiação no concurso de contos em um jornal de Porto Alegre e a publicação de seu poema em uma revista carioca. A dona Virginia e o seu Celso se orgulhariam do guri que eles ensinaram à escrever.
"Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E — ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…"
Já na década de 40, Quintana é bastante elogiado por intelectuais e recebe uma indicação na Academia Brasileira de Letras, porém perdeu para um ministro. Depois, para o atual presidente da ABL e mais tarde para um bom jornalista, mas que não tinha nem fama de escritor. Fora a maior injustiça da academia, mas quem disse que Mario se importou, pelo menos a sua criatividade não se afundou. E surgiu a bem sucedida resposta ao ocorrido, com o poeminha do contra:
"Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão... Eu passarinho!"
Poderia prolongar as palavras sobre o meu poeta preferido, mas a melhor definição fora escrita por ele mesmo.
“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro — o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu… Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Verissimo — que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras”. (Mario Quintana, 1984)


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