terça-feira, 2 de junho de 2015

É preciso contar e ouvir histórias

Foto - Beatriz Ferreira

  Ana Marize Solino e Thereza Maria Lucciola são contadoras de Histórias em Brasília. Definir apenas um motivo para elas contarem histórias seria impossível, seus objetivos para com o público são muitos. Em uma geração acelerada em que o ouvir se torna cada vez mais difícil, parar e escutar uma história é um momento glorioso. Para Thereza, as crianças e adultos se recordam de lembranças afetivas e se identificam com o personagem, assim como as pessoas se aproximam uma das outras ao ouvir as histórias repletas de lições vida. Ana Marize, assim como Thereza, defende que há necessidade de viver a fantasia. Para ela, se não vivenciarmos a fantasia no momento certo, haverá outros escapes na juventude.

  Em um castelo sombrio, vê-se a luz da fogueira que iluminava os olhos atentos a um ser. Não era uma onça faminta, tampouco uma hiena carnívora querendo se divertir, era um ser de olhos tão grandes e a boca também. Andava pelo jardim, contando assim: Era uma vez, uma garotinha que estava levando leite e pão para sua avó. No caminho pela floresta, um lobo perguntou a ela o seu destino. A garotinha respondera que estava indo à casa da vovó. O lobo chegou na casa primeiro e devorou a avó. Colocou seu sangue em uma garrafa e a carne em um prato, comeu satisfatoriamente e guardou as sobras na despensa. Vestiu a camisola da senhora e deitou-se, quando a garotinha entra na casa, o lobo diz para ela se alimentar com vinho e carne que estão na despensa. A garota comeu, e jogou suas roupas na lareira quando disse: Como a senhora é peluda vovó. O lobo retornou, é para te esquentar. Que unhas grandes a senhora tem. È para me coçar. Que dentes grandes a senhora tem. É para te devorar.

  O castelo era um café em Brasília, a luz provinha de lâmpadas no teto. Os olhos atentos eram de uma estudante de jornalismo, que curiosamente perguntou a primeira versão da história de Chapéuzinho Vermelho por Charles Perrault. O ser era uma talentosa contadora de histórias que nasceu na capital do país,  começou os seus primeiros trabalhos contando histórias para crianças na biblioteca da escola em que trabalhava como professora. Formada em Letras pela UniCEUB (centro universitário de Brasília) e especialista em psicopedagogia. A contadora de histórias é Ana Marize Solino. Ana é um nome hebraico que significa cheia de graça. Marize vem do Latim e significa: proveniente de marte. È uma devida explicação para histórias que fazem rir, e inevitavelmente, transportam a imaginação para outro planeta. 

  Díspar da versão dos irmãos Grimm sobre a história de chapéuzinho vermelho, o conto de Perrault pode ser assustador. Mas desde os séculos passados, os contos de fadas carregam um sentido moral, assim como a fábula. Expressões que são utilizadas em dias contemporâneos vieram de épocas distantes. A velha frase da mãe que diz para seu filho não falar com estranhos, remete a uma garota com capuz vermelho que parou seu percurso para falar com um lobo mal. Porém, contos de fadas não são só advertências. A imaginação é explorada sem constrição, os contos fazem sonhar e os contadores fazem sonhadores. 

  Ana Marize adentrou no universo das historias não apenas por façanhas do destino, mas ela conta que o mesmo destino trouxe do Rio de Janeiro para Brasília, a professora Thereza Maria. “Ela (Thereza) hoje está com 75 anos e em 1995, fui fazer uma curso com ela e o grupo Confabulando. Thereza Maria viu o meu potencial e de mais dois amigos, então nós formamos um grupo com o nome: Imaginários”. 

  “A Ana participou da minha oficina para formação de contadores de histórias e eu convidei ela, Tatiana e Damasio para formar um grupo. Formamos o nosso primeiro grupo e a experiência foi maravilhosa” Conta Thereza. O grupo Imaginários se apresentava em feiras, creches e escolas, como também abriam palestras. O grupo se extinguiu, mas Thereza formou outro grupo com crianças e adolescentes depois de imaginários, ela completa 17 anos nesse trabalho. 

  Ana descobriu que se tornou uma contadora de histórias quando por um castigo da diretora na escola em que trabalhava, fez com que ela saísse da sala de aula e fosse para a sala de leitura na biblioteca. Contando histórias, ela resolveu cursar uma oficina nesta área; foi quando, encontrou Thereza Maria contando a sua experiência e formando mais contadores. Thereza veio da casa da leitura, em Botafogo – RJ, onde começou o movimento de cursos para contadores de histórias. A casa da leitura se extinguiu, mas Thereza trouxe a proposta para Brasília.

  A contação de histórias promove o incentivo à leitura, e busca aproximar as crianças com a literatura. Mas Ana Marize ainda acrescenta “se você não mostra de onde veio a tua fonte, vai fugir do objetivo de todo contador de histórias: promover a leitura. Eu quero que a criança ou o adulto que ouça a minha história saiba de onde eu tirei e se ele sentir vontade de ouvir essa história novamente, ele vai saber onde encontrar”. Como contar histórias aproxima os ouvintes da leitura, também busca o exercício da ética. A honestidade em contação de histórias é exercida à cada crédito que um contador transfere aos criadores das histórias, e especialmente, fazem os ouvintes não pararem de ouvir aquele único conto. Despertam a curiosidade de quem está na plateia, para que estes também possam desenvolver outras histórias.

  “Eu trabalho só com a oralidade, não uso Mascara. Nós tentamos resgatar o contador de histórias da antiguidade. Nos primórdios dos tempos, eles usavam somente a palavra e com todo o seu charme, para encantar as pessoas.” Disse Thereza. Ana Marize também afirma que quando se conta uma história é importante olhar nos olhos de quem está ouvindo e trabalhar a expressão do corpo e da voz. Compartilhando a visão de Thereza, a Ana Marize ainda afirma: “Os gestos têm de ser condizentes com a história, não pode ser algo muito espalhafatoso.” Para que assim, o foco esteja nas palavras de quem a diz.

  “Se eu falar sobre a chapéuzinho vermelho, você cria a história. Mas se você ver na televisão, é aquilo e pronto” Disse Thereza, que significa natural de Tera. Maria significa a soberania e pureza. Quem traz a soberania para a terra com histórias que despertam o mais puro olhar de um ser. Mulheres, professoras, contadoras de histórias. Pessoas como elas, como todo ser humano apaixonado por palavras, ensina que a contação de histórias não é único direito de quem as contam, mas os contadores de histórias dão esse direito a quem as ouve também. A imaginação transborda a realidade, a criatividade ousa passear e o coração anda junto com o falar. 

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