Hoje, 24 de junho de 2016, faz um
ano que meu amigo se foi.
Ainda é estranho estacionar o carro na garagem e ver que sua casa está trancada e com as luzes apagadas. O risco na parede ainda está intacto do dia em que você encostou a caminhonete no muro. Mas é porque eu também fiz isso.
Eu não me acostumo em ter que andar pela chácara vendo sua cadeira de madeira vazia e empoeirada. Ninguém senta nela porque só você sabia como ocupá-la, cruzando as pernas com o mesmo tênis cinza de que eu me lembro desde pequena. Você iria sorrir se soubesse que o Mário, seu neto e meu irmão, usa esse tênis na escola.
O cachorro anda tão esquisito, vovô. O primeiro vira-lata da geração, que te seguia para todos os lados, morreu. Ele deixou um filhote que também se foi e hoje resta apenas o neto - que tem o mesmo nome dos outros cachorros. O peteleco está tão magro e só o vejo vagando sozinho por aí. Entendo o porquê de ele não querer comer mais... era você que dava ração todos os dias para esse cachorrinho sem vergonha.
Sobre o joão-de-barro, faz tempo que ele não constrói ninho na varanda de casa. Também não vejo mais aquele passarinho amarelo, que toda vez que ele voava, você o mirava com estes teus olhos cansados, mas ainda brilhantes.
Papai vendeu o Atos porque ele estava muito solitário. Eu lembro de quando você me ensinava a cavalgar o cavalo que era seu, era meu. Era nosso.
Não tivemos muito tempo depois do dia em que escrevi meus garranchos para ti, mas nossa última troca de olhares foi o bastante. Naquele dia, eu te entreguei um bolo de milho e você me enxergou ainda pequenina, de cabelos em pé e sorriso banguela. E eu também recordava os momentos em que sua risada ecoava em minha infância.
Vovô Mário, o som singular de sua risada, que estremecia os eucaliptos que você plantava, está guardado em minha memória.
Vovô Mário, o som singular de sua risada, que estremecia os eucaliptos que você plantava, está guardado em minha memória.
