"Homem, pegue o gato que não pegar o rato que não quer roer a corda que não quer laçar o boi que não quer beber a água que não quer apagar o fogo que não quer queimar a vassoura que não quer bater no cachorro que não quer morder o Joarez que pegou o meu pacote de amendoim."
E não é que no fim, o menino conseguiu de volta o seu pacote de amendoim?! Acho que eu já teria desistido, mas é por isso que existem contos de fadas. Será que a fantasia alimenta esperanças? O que seria da vida sem as histórias? Ah, deixe-me perguntar para quem irá contar as respostas com uma história. Ana Marize Solino, a contadora de histórias que foi parar no mundo dos contos por um castigo. Ana era professora e a diretora da escola achava que ela não tinha pulso com os alunos, até que ela foi parar na sala de leitura da biblioteca. Neste lugar ela continuou o que fazia desde cedo.
Os seus contos são tão divertidos que fomos abordadas no meio da entrevista por uma mãe que dizia para a sua filha escutar aquilo. Ela também me presenteou com o filme que produziu: "Conta que eu conto", que termina com o grande conto que Fidência espalhou. Se encante com as histórias repleta de vozes que ela faz, mas se você é fã de chapeuzinho vermelho, não peça para ela te contar a verdadeira história. Charles Perrault é um pouco assustador.
Conheça agora a história de uma contadora de histórias!
Como você iniciou a carreira de contadora de histórias?
Ana Marize: Em 1994, eu fui para um congresso de leitura chamado ‘Coli’ na Unicamp. Fui com mais duas amigas e nós nos separamos, cada uma iria participar de uma determinada oficina e eu fui fazer a oficina de redação porque como sou formada em letras eu achei que fosse bacana participar dessa oficina. Quando foi a noite, uma amiga me disse que estava participando de uma oficina sobre os contadores de histórias e era maravilhosa. Naquela época, eu trabalhava na sala de leitura em uma escola de 1º à 4º série porque a diretora achava que eu não tinha pulso com os meninos e a sala na biblioteca seria um castigo. Mas foi onde eu me descobri, ela não sabia que estava direcionando a minha carreira. Ás vezes as pessoas querem te dar um castigo, mas acabam fazendo você ir ao encontro do teu destino.
E então, eu consegui ir para esse congresso através de pessoas que eu tinha feito amizade. Quando a minha amiga falou sobre esse trabalho dos contadores de história, eu disse: Não sei bem o que é isso, mas vamos lá. Quando eu cheguei no lugar e vi o trabalho deles, era um grupo de professores universitários da universidade Federal de Goiás que existe até hoje. È o grupo Guaía, de Goiânia. Eles são contadores de histórias e alunos do grupo MorandoBetar, um dos primeiros grupos de contadores de histórias do Rio de Janeiro. E um dos seus participantes antigos era o Celso Cisto. Quando eu vi este trabalho eu pensei que era o que eu já fazia, porque eu queria fazer as crianças gostarem de ler. Eu sempre amei a leitura, com 12 anos eu lia crônicas na biblioteca quando acabava minha aula, e sem querer eu já tinha o principio de contadora de histórias. Eu gostava da história e começava a ler para os meus colegas, e de tanto eu ler acabava memorizando.
Por isso que em contação de histórias, diz que decorar vem do latim de cuore, de coração. Acabo pegando o texto de coração. E vendo aquele trabalho deles, eu pensei: eu quero fazer isso. Participei da oficina e não queria mais saber do meu curso de redação, imagina...Redação para vestibular, quero nem saber o que é isso! (risos)
Você costumava contar histórias desde a infância ou foi desenvolvendo ao longo do tempo?
Ana Marize: A gente sempre é o que a gente é. Só vamos aprimorando se encontrarmos as pessoas certas para nos ajudarem no caminho, como dizem nos contos de fadas e nos contos maravilhosos, sempre temos que ter um auxílio. Um doador mágico: aquele que vai te ajudar a seguir o seu caminho, e se você encontrar essa pessoa você irá de encontro ao seu destino. Minha família é do Maranhão, eu me lembro que na minha casa todos chegavam com uma história daquelas que quando íamos contar fazíamos a voz da pessoa. Minha tia falava: “pois é! Porque eu fui num sei onde e a mulher com aquela voz de preguiçosa: é a-ssi-m mês-mo” (risos) eu tenho um problema muito sério, não me conte nada que você não queira que eu veja porque se você me contar eu vou ver a cena. E na minha família, era eu quem contava histórias.
Qual foi o seu primeiro contato com a literatura?
Ana Marize: Minha primeira paixão foi Monteiro Lobato, aos 10 anos de idade ganhei a coleção do sitio do pica-pau amarelo. Eu amo contar as histórias da tia Anastácia, contava também a história do bicho manjaleú para os meus primos. Já aconteceu de irmos ao acampamento e as crianças adormecerem com as minhas histórias e quando elas acordavam, me perguntavam: “o que aconteceu com a princesa? O que aconteceu?” (Ana faz um tom de desespero na voz).
Você busca inspiração em algum conto ou personagem para contar as suas histórias?
Ana Marize: Sim, eu gosto muito de contos populares. Quando eu conto uma história autoral eu me sinto na obrigação de decorar virgula por virgula do que o autor escreveu para respeitar o texto. E como o conto popular vai se modificando ao longo do tempo, começa de um jeito e termina de outro, você pode acrescentar alguma coisa que ache interessante.
Quais foram os seus primeiros trabalhos?
Ana Marize: O destino trouxe do Rio de Janeiro para Brasília, a professora Teresa Maria, antiga na área. Ela hoje está com 75 anos e em 1995, fui fazer um curso com ela e com um grupo chamado Confabulando. Teresa Maria viu o meu potencial e de mais dois amigos, então nós acabamos formando um grupo com o nome Imaginários. Com esse grupo e Já com duas oficinas, eu entendi que eu estava sendo contadora de histórias. Comecei à me apresentar em escolas e feiras de livros infantis no Park Shopping, contei histórias para as paulinas e também contei histórias em aniversários de criança. Mas foram devido aos jornalistas que tinham uma mente mais aberta, e acharam que era melhor que palhaços e competições nas festas dos seus filhos! (risos)
Como é o processo de contar histórias?
Ana Marize: Em primeiro lugar, eu tenho que gostar da história. Porque se eu não gostar, eu não vou saber contar essa história direito. Pela profissão de professor, dar para ler uma determinada história com expressividade e emoção. Mas para contar bem, você tem que gostar e se identificar com a história. O processo de contar histórias está intimamente ligado ao namoro. Quando você namora, primeiro você gosta e depois começa à falar de ser amado para outra pessoa. “Ai! Você viu as covinhas, o narizinho e o cabelinho jogadinho ?”. Depois de gostar e falar dessa história para as pessoas, segue para o processo de conhecimento da história. Este conhecimento tanto pode uma ser a memorização ou até ler a história, não há problema, mas você tem que saber o que está lendo. Não posso simplesmente pegar um livro e ler, porque eu não vou saber o que vai acontecer na página seguinte.
Esse processo é uma dinâmica com a forma que se conta a história?
Ana Marize: Sim, é importante olhar nos olhos de quem se conta a história e trabalhar a expressão do corpo e Voz. Os gestos têm de ser condizentes com a história, não pode ser algo muito espalhafatoso. Neste final de semana no dia 20 de março, fui em uma comemoração dos contadores de histórias e vi de tudo. Há inúmeras propostas, na escola que aprendi a estrela tem que ser a história. Para mim, um contador de histórias que vai muito enfeitado eu começo à prestar atenção nele e não no que ele está falando. Eu uso objetos, porém eu não me fantasio. Mas também não condeno, tem gente que se sente mais confortável fazendo um personagem para contar histórias; é a linha que a pessoa resolveu adotar.
Qualquer um pode contar histórias ou deve ter o dom para isso?
Ana Marize: Todo mundo é contador de histórias, o filho conta a história de como foi o seu dia para os pais. As histórias estão acontecendo o tempo inteiro ao nosso redor. Qualquer um pode? À principio sim. Mas a pessoa quer e está disposta a fazer o que a profissão pede?
Você acha importante os pais lerem histórias para as crianças?
Ana Marize: Sim, acho importantíssimo os pais contarem e lerem as histórias. Mas acho fundamental, por uma questão de ética até para a criança procurar depois, os país mostrarem de onde veio a história. Se é um conto popular que você fez uma pesquisa nas narrativas orais, se pegou de Camera Cascudo, Silvio Romero ou até dos folcloristas atuais como Ricardo Azevedo e Angela Lago. Porque se você não mostra de onde veio a tua fonte, vai fugir do objetivo de todo contador de histórias: promover a leitura. Eu quero que a criança ou o adulto que ouça a minha história saiba de onde eu tirei e se ele sentir vontade de ouvir esta história novamente, ele vai saber onde encontrar.
Essa arte de contar histórias desenvolve adultos melhores?
Ana Marize: Sim, sem sombra de dúvidas; Há necessidade de se trabalhar com a fantasia. Fiz uma postagem em meu Blog sobre a série chamada Drop dead diva, falei sobre a ligação com os contos de fadas e cito sobre o Bruno BettelHeim, ele escreveu um livro quase de cabeceira para qualquer contador de histórias que se chama a psicanálise dos contos de fadas. Ele fala da importância da criança ouvir histórias para a formação do seu caráter e personalidade. BettelHeim cita um acontecimento verídico de uma mãe de tanto brigar com a criança, esta começa à achar que foi adotada e que sua suposta mãe verdadeira e boazinha irá resgata-la daquele lugar ruim. Tal qual muitas princesas também pensam que estão aprisionadas, em uma forma de sapo ou enfeitiçadas. Se a gente não vivência a fantasia no momento certo, haverá outros escapes na adolescência; como drogas e desvio de conduta.


